E agora chega a mais velha novidade: praticar Yoga despido. A “nova” febre vem timidamente invadindo as salas de Yoga. Mas seria isto de fato uma “novidade”?
Se considerarmos que o Hatha Yoga é uma modalidade espiritual e corpórea filha do Tantra, seu berço original, e considerando-se que o Tantra sempre foi compreendido como um viés filosófico, político, social, cultural e místico de contracultura, e ainda que seus devotos são adeptos da nudez como símbolo de desapego e liberalidade, não temos nenhuma novidade de fato.
Está na cultura do Tantra buscar a transcendência psíquica e espiritual através do corpo, de fato o objetivo maior do Tantra é a apropriação do Self por intermédio do corpo e das suas funções inconscientes ou vegetativas, já que o método tântrico objetiva integrar a mente de vigília ou consciente com a mente inconsciente em suas diferentes instâncias de manifestação e no complexo mundo onírico e arquetípico dos incontáveis fenômenos psíquicos e orgânicos.
A roupa é por si só o simbólico social que determina as diferenças e desigualdades sociais. Isto é indiscutível, a roupa é a sociedade, especificamente a sociedade falocêntrica, piramidal, machista e castradora.
Então parece-me óbvio que as roupas são simbólicos penetras na prática transcendente, ainda mais no Yoga, que afirmo, apoiado em elementos históricos e sociológicos, é tântrico, logo subversivo e polêmico por natureza. Manter as roupas é manter o discurso de marginalização e hierarquização social inerente à sociedade patriarcal e repressora.
Yogues e Yoguinis pelados compõem a iconografia tântrica indiscutivelmente, não raro teremos imagens de praticantes pelados ou com pequenas tangas e peles de animais (antílopes e tigres). Recordemos das Devi Dasis e dos Dakas e Dakinis.
Imaginem as deidades representadas no templo tântrico de Khajuraho com colãs e roupas fitness zen? Imaginem os Sadhus indianos com indumentárias de academias ou com uniformes destinados à prática do Yoga com o Omkara impressos nos tecidos? Não seria um despropósito cultural e filosófico?
Um asceta tantrika vestido tem algo de incoerente não?
Isto quer dizer que praticar yoga com roupas é equivocado? Não seria tão radical, é óbvio que a prática do Yoga foi incorporada em nossa sociedade moderna, e a mesma, reflete o discurso de castração e preconceito, de demonização do corpo e da nudez. Sem sombra de dúvida o Yoga sofreu e sofre uma descaracterização violenta (o que transformou a prática) poderia dizer que o Yoga foi “desalmado”, e quiçá fosse tão somente pela imposição das vestes na prática, mas é muito pior, o Yoga moderno afastou-se (tanto em teoria quanto em práxis) de suas origens e fatalmente perdeu o foco de seus objetivos que justamente nos falam de Kaivalyam, ou seja, isolar o indivíduo das influencias pestilentas sociais, que lhe privam da autonomia e de sua verdadeira natureza.
Ora, se o objetivo do Yoga é despertar, fortalecer e proteger a identidade pessoal, a natureza original do Ser, é claro que as roupas são contraditórias e opõem-se à natureza. No entanto, a adesão ao Yoga, não exige do sujeito que este se faça naturista compulsório, tão pouco que ele assuma um modelo de vida similar aos dos primeiros Yogues.
Contudo, se existir a possibilidade de realizar a prática do Yoga, de maneira coletiva ou pessoal (no conforto da privacidade), livre das amarras sociais impostas (não limitando-se às vestes), tanto melhor. As benesses são empíricas e observáveis à qualquer praticante que se permita experiência-las.
O corpo nu aplicando-se no Sadhana, conferirá uma maior oxigenação do corpo, maior liberdade de movimento, o fluxo do prana se faz mais eficiente e livre, e a subversão e desobediência social possibilitam estados de consciência diferenciados e até mesmo expandidos, pois o corpo foi tolhido em seus movimentos, e é isto o que justamente significa a palavra “Liberdade” em sua origem etimológica!
Enfim, Yoga pelado não é nenhuma novidade, não é coisa do futuro, mas justamente uma expressão mística e nostálgica da experiência primeira dos Yogues e Tantrikas do passado!
(...)
Yoga pelado ao ar livre, sob a luz do sol, em companhia de outros sadhakas e sadhikas, quem já vivenciou isto, sabe do valor da prática e dos benefícios que ela confere!
Sem desconsiderar que o despir que o Yoga oferece é bem mais profundo e sobremodo mais exigente!
Debaixo da roupa estamos e somos todos pelados!
Saúdo à todos os santos e santas vestidos de céu!
Reverências às imaculadas almas nuas!
Prema Seva!
Vida plena!
Texto de Vajrananda Sahaja Tantra Acharya (Diógenes Mira)
O Povo precisa de novos Messias